Friday, August 27, 2010

Nós, as pessoas, e as coisas à nossa volta. Aqueles reflexos na água, dos nossos risos, e a cor deles no luar. Os reflexos da água são tanto como somos, que o real é tão surreal que já não interessa mais do que parece... Que já não interessa pensá-lo, tentar tocar-lhe e explicá-lo, por não ser mais do que um ténue roçar, um limbo, um pairar frágil... Não lhe quero tocar, que não o quero perder...
Quero falar para sempre, na metáfora do que o diálogo pode ser, e descobrir como se abre a porta que o torna possível neste real sujo e cinzento, que se mede e define e em que se toca, sem se sentir nada e sem que se parta.
Quero falar para sempre contigo, e com essas pessoas como tu, que andam aqui como quem anda ali... Ou que são dali e aprenderam que o aqui não existe. Dá-me a mão e ajuda-me a saltar para onde o aqui já está com os nossos risos no reflexo do rio, na luz do luar.
Tu és daí e o mundo é todo teu sem teres que ter nada mais do que esse poder verdadeiro de quereres ser de todo o lado e de toda a gente, sem te prenderes a lado nenhum e a nenhuma pessoa de qualquer outra forma que não a de existires nessa tua natureza, num sítio certo, num momento certo.
E dás-te quando és livremente inalcançável.

Wednesday, July 14, 2010

Deve ser este o ponto de partida do fim

Escrever já não vai servir de nada, pintar já não vai servir de nada, correr já não vai servir de nada, gritar já não vai servir de nada. Não vai haver mais refúgios, mais capas, mas camadas, mais sal e mais pimenta. Vamos ter de engolir em seco, de mastigar a cru, de sentir a dor cuja intensidade não muda com mais os menos pressão na ferida.
Não vai haver mais refúgios e depois disso não deve haver mais nada.

Friday, July 09, 2010

Hoje não acho ridículo sentir a necessidade do outro numa espécie de esperança de salvação, no paradoxo de que uma dependência será libertadora.
Não é que não lhe quisesse bem.
Queria-lhe, até, muito bem... Todo o bem do mundo.
Só que não deixava de sentir um nó na garganta quando a via ter momentos de única felicidade ou o que quer que fosse de bom, em que não tinha estado presente... Sabendo que provavelmente não voltaria a estar.

Thursday, July 08, 2010

fugir!

Dá a fuga dá.
Atravessa a rua, que seja, e vais ver se não podias correr até ser de dia sem teres fugido de NADINHA. mata o bicho, corre como quem corre pela vida! que é como quem corre só por correr. corre a corrida e vais ver!

Bem-vindos aqui.

Bem-vindos aqui.
Apresento-vos um não-lugar. Um espaço tão cheio de tanta gente, e tão assustadoramente solitário e de solitários...
Bem-vindos aqui.
Apresento-vos a descoberta de que a índole da globalização dos lugares fez com que já só existissem não-lugares.
Apresento-vos a solidão.
Uma solidão que não é a daqueles que foram deixados, ficando de fora daquilo que lhes sustentava o sentido de ser. Apresento-vos a solidão daqueles que se aperceberam que nunca terão oportunidade de serem deixados, por lhes ser inevitável a impossibilidade de alguma vez pertencerem a coisa alguma.
Bem-vindos aqui.
Aqui podem pertencer, finalmente.
Apresento-vos o lugar daqueles que não pertecem a lado nenhum.
Bem-vindos aqui, ao lugar dos desistentes que na esperança de que o vazio de cada um deles se junte ao vazio do outro e crie um buraco negro, continuam diariamente a sua rotina solitária, não vendo nunca no outro a esperança da relação, mas sempre, na inevitável manipulação que os construiu como são, a profunda imutabilidade da perda do sentido do ser.
Aqui é aqui, e aí, e ali, e em todo o lado onde estou.
Apresento-vos o eu que não pertence a lado nenhum.
A fraude, o eu e o nós que deambula pela vida assente numa estrutura tão vazia que quase já nem doi.
Queria chorar e não sabia porquê.


Era a sensação de não pertencer a lugar nenhum sem nenhum motivo em especial. Porque os motivos especiais indicam que se pertence a alguma coisa.

Sunday, July 04, 2010

Sunday, June 27, 2010

A noite, no seu máximo poder libertador, que não vou contar os sonhos, está a uma janela de distância.
Acho que devíamos sair esta noite, mas não ir sair.
Devíamos sair e passear pelos caminhos que se descolam das identidades que o dia lhes dá... Devíamos ir ver o reflexo das estrelas nos rios, porque não interessa que seja uma coisa foleira, se é uma coisa bonita. Também nos devíamos deitar num jardim público, que não ia ter ninguém, e falar e chorar mágoas, e rir, e escrever isso tudo nas paredes, que na manhã seguinte iriam, com uma réstia de esperança não-utópica, fazer, pelo menos, desviar os olhos dos corpos rotineiros que ficam em casa todas as noite.

A uma janela de distância está a brisa com que quero ir ser. Está uma coisa qualquer sem fronteiras que é esquematizada e limitada pelos convencionalismos que o dia-a-dia lhe impõe... Está a oportunidade de experimentar a liberdade, que até podemos ir nus... Está a oportunidade de esperar que alguém recolha vestigios de nós, e que saia nu numa noite seguinte, para que alguém, um dia, saia nu de manhã.

Thursday, June 24, 2010

Ai ai AAAAAI

Coisas do fundo do baú

Antes eu andava por mim.
E era, por mim.
E fazia sentido sem sentir a falta de nada.

Um dia deste-me a mão e agora só me encontro quando me perco em ti. Queria voltar a ser por mim... O pior é que é difícil que faça sentido quando a falta da tua mão não me deixa ser quem era.

Monday, June 14, 2010

Olá a ti, e a ti, e a ti também. Boa camisa, onde compraste? Olá, incomoda-o conversar com uma pessoa qualquer? Não? Ponha-se à vontade então...
Vá lá, todos sabemos que o hábito faz o monge.
E os hábitos criam-se, ou recriam-se... Não sei bem.
Não se trata de chatearmos toda a gente e de viver numa anarquia de invasão de privacidade. Não se trata de pararmos o trânsito ou de pararmos uma pessoa que vai a correr com a mochila aberta, com os livros quase a caírem. Trata-se de sermos mais família num sentido em que nos devia ser automática a possibilidade de comunicação pela simples partilha de um espaço. Trata-se de criarmos o hábito de nos apresentarmos sem termos de ser apresentados e de podermos dizer qualquer coisa para ouvir a voz da pessoa que se senta todos os dias ao nosso lado no autocarro... É quase triste que se estranhe um "meter conversa". Amanhã, quando for para a rua, vou falar com quem me apetecer, e experimentar uma relação directa com pessoas que que partilham um espaço comigo e com outros "eus" sem partilharem mais nada, porque aprenderam a tansportar um biombo de cada lado e a deixarem-se conformar por não empurrarem as portas entreabertas nas quais gostavam de entrar. Eu também sou assim, mas não quero ser mais, porque na verdade, gostava que me dissessem que tinha uma boa camisa só porque sim. E porque reparei que se o hábito fosse esse o monge era mais livre e mais feliz.

Thursday, June 10, 2010

de Nashville

Tinha sido um dia saturante. Mais um dia saturante...
No caminho de regresso pôs as mãos nos bolsos do casaco e deixou-se sentir.
Deixou-se guiar pela facilidade do sentir.
No caminho de regresso agradeceu por não ter levado carro.
Quase automaticamente as suas pernas conduziram-no para casa sem que a sua mente pensasse no caminho, e não se fala de direcções... fala-se, essencialmente, da infinidade que parece o repetir de um percurso rotineiro.
Não pensou também em sentir, porque sentir não é pensar, e sentiu.
Finalmente sentia a facilidade do sentir. Finalmente!
Sem reparar chegou, então, a casa. Mas não entrou...
Lançou-lhe um olhar suspirado e deixou que o ar que lhe encheu os pulmões de uma euforia do existir o levasse a qualquer lado... E assim descobriu que o vento na cara era a resposta ao sentido que tentava procurar no repetir dos seus dias saturantes e enfadonhos.

Wednesday, June 09, 2010

Altura de repetir textos por repetição de feelings

Quero essa bossa... Essa, de sensualidades sussuradas.. Tão groovy... Quase sambável. Dá-me essa bossa por favor. Tão de tanta gente e tão só nossa.
Tão grande.
Dá-ma que quero trocar de interior, enche-me daquele sorriso eufórico, que está em todo o lado. Ou lá o que é que está em todo o lado... Tu sabes... se inspirares muito de força também sentes. Está lá dentro.
Dá-me essa bossa que ela faz-me sentir que sim. Só assim.
Assim chega, vem, vamos curtir uma bossinha...

Uma bossinha que é o segredo das coisas.
A pedra apaixonou-se quando não estava à procura de amor. Apaixonou-se quando, na verdade, nem se sabia capaz de amar... e não acreditou que o seu coração não fosse também de pedra até ao dia em que ele se partiu sem deixar visíveis os destroços.

Tuesday, June 08, 2010

O miúdo que se apaixonou por uma miúda cujo olhar lhe dava a mão para depois o atirar para o chão de uma altura infinita

O miúdo nunca tinha pensado que gostar de alguém fosse assim.
Gostava tanto dela que lhe chegava a doer... Afinal, tinha um coração de miúdo, músculo em desenvoltura... Pode, no entanto, dizer-se, que era uma dor boa... a mesma que sentimos quando nos dão o empurrão que nos ajuda a fazer a espargata pela primeira vez... Nunca tínhamos sentido os tendões esticarem tanto, mas a verdade é que, sem sequer sabermos que era possível, ali os tínhamos, a deixarem para o trás o antigo máximo, que era já "o máximo"!
Ora, o miúdo nunca tinha pensado que os tendões do seu coração pudessem esticar tanto... De certeza que aquilo era "o amor", porque "a paixão" é só um alongamento fora da série, sem resultados a longo prazo na extensão dos músculos. Aquele era um bom sentimento estranho. Mas como sempre, nada dura para sempre.
Imagine-se agora, então, e esta história vai continuar a servir-se da metáfora realista do corpo humano, que os tendões são elásticos... Quanto mais esticamos um elástico, mais nos vai magoar a mão deixá-lo fugir, cortá-lo...
Os tendões do miúdo tinham aprendido a esticar tanto por amor que, por mistérios que só podem ser do amor, voltavam a esticar, de cada vez que ela os cortava com a frieza do seu olhar. Do seu coração chicoteado, voltavam a esticar, cada vez mais fracos, para serem novamente cortados.
Foi assim que o miúdo passou a alimentar-se de sofrimento, que é como quem diz "de amor". O que teria ela de especial para que o miúdo não conseguisse sobrepor-lhe a lembrança e a presença do estado do seu coração? Nas veias do miúdo correu sangue e depois lágrimas... Agora, são só a estrutura que limita o vazio que começa no buraco do seu coração.

Monday, June 07, 2010

o chapéu que é agora um abajour

A luz vai-se.

O chapéu tinha vestido as mais nobres cabeças da década passada. Tinha, aliás, feito mais nobres ainda as já nobres cabeças que vestira. O chapéu tinha sido realmente bom, e, consciente da sua faculdade de realmente bom, era um chapéu arrogante "por direito". No mínimo, pelo direito à liberdade de ser infeliz.
Parece impossível, agora, imaginá-lo brilhante a fazer brilhar, na sujidade inválida que carrega.
Do topo das cabeças que reflectem os flashes da ribalta doi muito cair para o canto do quarto, onde não há "sequer" o reflexo do sol.
Mais do que a sujidade e o orgulho ferido pela dispensa, o chapéu carrega agora a vergonha do abandono da figura que construira, pela procura da subsistência num rasgo fraco de luz, que absorve, de abas para baixo, como quem fuma um cigarro "light" para aguentar, sem nunca ficar plenamente satisfeito. Mais, sabendo que nunca voltará a fumar cigarro "normal".
O chapéu que fazia brilhar é agora um abajour, que se arrastou para um candeeiro partido e com pó, e que sobrevive da luz intermitente de uma lâmpada a avariar.

Friday, June 04, 2010

há aqui camadas que não se falam, não se cantam, não se gritam... não se explicam.

não me vêem, não sou.

Wednesday, June 02, 2010

AUTCH

Monday, May 31, 2010

Era uma vez um vazio... invisível por um visível sorriso.
Um sorriso de pano numa estrutura de vazio.

Como não vês que é de pano, de aparente realidade, a estrutura mantém-se. Se visses, enchias o vazio e era uma vez um visível sorriso verdadeiro numa estrutura invisível de nós.