Sunday, June 27, 2010

A noite, no seu máximo poder libertador, que não vou contar os sonhos, está a uma janela de distância.
Acho que devíamos sair esta noite, mas não ir sair.
Devíamos sair e passear pelos caminhos que se descolam das identidades que o dia lhes dá... Devíamos ir ver o reflexo das estrelas nos rios, porque não interessa que seja uma coisa foleira, se é uma coisa bonita. Também nos devíamos deitar num jardim público, que não ia ter ninguém, e falar e chorar mágoas, e rir, e escrever isso tudo nas paredes, que na manhã seguinte iriam, com uma réstia de esperança não-utópica, fazer, pelo menos, desviar os olhos dos corpos rotineiros que ficam em casa todas as noite.

A uma janela de distância está a brisa com que quero ir ser. Está uma coisa qualquer sem fronteiras que é esquematizada e limitada pelos convencionalismos que o dia-a-dia lhe impõe... Está a oportunidade de experimentar a liberdade, que até podemos ir nus... Está a oportunidade de esperar que alguém recolha vestigios de nós, e que saia nu numa noite seguinte, para que alguém, um dia, saia nu de manhã.

Thursday, June 24, 2010

Ai ai AAAAAI

Coisas do fundo do baú

Antes eu andava por mim.
E era, por mim.
E fazia sentido sem sentir a falta de nada.

Um dia deste-me a mão e agora só me encontro quando me perco em ti. Queria voltar a ser por mim... O pior é que é difícil que faça sentido quando a falta da tua mão não me deixa ser quem era.

Monday, June 14, 2010

Olá a ti, e a ti, e a ti também. Boa camisa, onde compraste? Olá, incomoda-o conversar com uma pessoa qualquer? Não? Ponha-se à vontade então...
Vá lá, todos sabemos que o hábito faz o monge.
E os hábitos criam-se, ou recriam-se... Não sei bem.
Não se trata de chatearmos toda a gente e de viver numa anarquia de invasão de privacidade. Não se trata de pararmos o trânsito ou de pararmos uma pessoa que vai a correr com a mochila aberta, com os livros quase a caírem. Trata-se de sermos mais família num sentido em que nos devia ser automática a possibilidade de comunicação pela simples partilha de um espaço. Trata-se de criarmos o hábito de nos apresentarmos sem termos de ser apresentados e de podermos dizer qualquer coisa para ouvir a voz da pessoa que se senta todos os dias ao nosso lado no autocarro... É quase triste que se estranhe um "meter conversa". Amanhã, quando for para a rua, vou falar com quem me apetecer, e experimentar uma relação directa com pessoas que que partilham um espaço comigo e com outros "eus" sem partilharem mais nada, porque aprenderam a tansportar um biombo de cada lado e a deixarem-se conformar por não empurrarem as portas entreabertas nas quais gostavam de entrar. Eu também sou assim, mas não quero ser mais, porque na verdade, gostava que me dissessem que tinha uma boa camisa só porque sim. E porque reparei que se o hábito fosse esse o monge era mais livre e mais feliz.

Thursday, June 10, 2010

de Nashville

Tinha sido um dia saturante. Mais um dia saturante...
No caminho de regresso pôs as mãos nos bolsos do casaco e deixou-se sentir.
Deixou-se guiar pela facilidade do sentir.
No caminho de regresso agradeceu por não ter levado carro.
Quase automaticamente as suas pernas conduziram-no para casa sem que a sua mente pensasse no caminho, e não se fala de direcções... fala-se, essencialmente, da infinidade que parece o repetir de um percurso rotineiro.
Não pensou também em sentir, porque sentir não é pensar, e sentiu.
Finalmente sentia a facilidade do sentir. Finalmente!
Sem reparar chegou, então, a casa. Mas não entrou...
Lançou-lhe um olhar suspirado e deixou que o ar que lhe encheu os pulmões de uma euforia do existir o levasse a qualquer lado... E assim descobriu que o vento na cara era a resposta ao sentido que tentava procurar no repetir dos seus dias saturantes e enfadonhos.

Wednesday, June 09, 2010

Altura de repetir textos por repetição de feelings

Quero essa bossa... Essa, de sensualidades sussuradas.. Tão groovy... Quase sambável. Dá-me essa bossa por favor. Tão de tanta gente e tão só nossa.
Tão grande.
Dá-ma que quero trocar de interior, enche-me daquele sorriso eufórico, que está em todo o lado. Ou lá o que é que está em todo o lado... Tu sabes... se inspirares muito de força também sentes. Está lá dentro.
Dá-me essa bossa que ela faz-me sentir que sim. Só assim.
Assim chega, vem, vamos curtir uma bossinha...

Uma bossinha que é o segredo das coisas.
A pedra apaixonou-se quando não estava à procura de amor. Apaixonou-se quando, na verdade, nem se sabia capaz de amar... e não acreditou que o seu coração não fosse também de pedra até ao dia em que ele se partiu sem deixar visíveis os destroços.

Tuesday, June 08, 2010

O miúdo que se apaixonou por uma miúda cujo olhar lhe dava a mão para depois o atirar para o chão de uma altura infinita

O miúdo nunca tinha pensado que gostar de alguém fosse assim.
Gostava tanto dela que lhe chegava a doer... Afinal, tinha um coração de miúdo, músculo em desenvoltura... Pode, no entanto, dizer-se, que era uma dor boa... a mesma que sentimos quando nos dão o empurrão que nos ajuda a fazer a espargata pela primeira vez... Nunca tínhamos sentido os tendões esticarem tanto, mas a verdade é que, sem sequer sabermos que era possível, ali os tínhamos, a deixarem para o trás o antigo máximo, que era já "o máximo"!
Ora, o miúdo nunca tinha pensado que os tendões do seu coração pudessem esticar tanto... De certeza que aquilo era "o amor", porque "a paixão" é só um alongamento fora da série, sem resultados a longo prazo na extensão dos músculos. Aquele era um bom sentimento estranho. Mas como sempre, nada dura para sempre.
Imagine-se agora, então, e esta história vai continuar a servir-se da metáfora realista do corpo humano, que os tendões são elásticos... Quanto mais esticamos um elástico, mais nos vai magoar a mão deixá-lo fugir, cortá-lo...
Os tendões do miúdo tinham aprendido a esticar tanto por amor que, por mistérios que só podem ser do amor, voltavam a esticar, de cada vez que ela os cortava com a frieza do seu olhar. Do seu coração chicoteado, voltavam a esticar, cada vez mais fracos, para serem novamente cortados.
Foi assim que o miúdo passou a alimentar-se de sofrimento, que é como quem diz "de amor". O que teria ela de especial para que o miúdo não conseguisse sobrepor-lhe a lembrança e a presença do estado do seu coração? Nas veias do miúdo correu sangue e depois lágrimas... Agora, são só a estrutura que limita o vazio que começa no buraco do seu coração.

Monday, June 07, 2010

o chapéu que é agora um abajour

A luz vai-se.

O chapéu tinha vestido as mais nobres cabeças da década passada. Tinha, aliás, feito mais nobres ainda as já nobres cabeças que vestira. O chapéu tinha sido realmente bom, e, consciente da sua faculdade de realmente bom, era um chapéu arrogante "por direito". No mínimo, pelo direito à liberdade de ser infeliz.
Parece impossível, agora, imaginá-lo brilhante a fazer brilhar, na sujidade inválida que carrega.
Do topo das cabeças que reflectem os flashes da ribalta doi muito cair para o canto do quarto, onde não há "sequer" o reflexo do sol.
Mais do que a sujidade e o orgulho ferido pela dispensa, o chapéu carrega agora a vergonha do abandono da figura que construira, pela procura da subsistência num rasgo fraco de luz, que absorve, de abas para baixo, como quem fuma um cigarro "light" para aguentar, sem nunca ficar plenamente satisfeito. Mais, sabendo que nunca voltará a fumar cigarro "normal".
O chapéu que fazia brilhar é agora um abajour, que se arrastou para um candeeiro partido e com pó, e que sobrevive da luz intermitente de uma lâmpada a avariar.

Friday, June 04, 2010

há aqui camadas que não se falam, não se cantam, não se gritam... não se explicam.

não me vêem, não sou.

Wednesday, June 02, 2010

AUTCH