Monday, June 07, 2010

o chapéu que é agora um abajour

A luz vai-se.

O chapéu tinha vestido as mais nobres cabeças da década passada. Tinha, aliás, feito mais nobres ainda as já nobres cabeças que vestira. O chapéu tinha sido realmente bom, e, consciente da sua faculdade de realmente bom, era um chapéu arrogante "por direito". No mínimo, pelo direito à liberdade de ser infeliz.
Parece impossível, agora, imaginá-lo brilhante a fazer brilhar, na sujidade inválida que carrega.
Do topo das cabeças que reflectem os flashes da ribalta doi muito cair para o canto do quarto, onde não há "sequer" o reflexo do sol.
Mais do que a sujidade e o orgulho ferido pela dispensa, o chapéu carrega agora a vergonha do abandono da figura que construira, pela procura da subsistência num rasgo fraco de luz, que absorve, de abas para baixo, como quem fuma um cigarro "light" para aguentar, sem nunca ficar plenamente satisfeito. Mais, sabendo que nunca voltará a fumar cigarro "normal".
O chapéu que fazia brilhar é agora um abajour, que se arrastou para um candeeiro partido e com pó, e que sobrevive da luz intermitente de uma lâmpada a avariar.

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