Tuesday, June 08, 2010

O miúdo que se apaixonou por uma miúda cujo olhar lhe dava a mão para depois o atirar para o chão de uma altura infinita

O miúdo nunca tinha pensado que gostar de alguém fosse assim.
Gostava tanto dela que lhe chegava a doer... Afinal, tinha um coração de miúdo, músculo em desenvoltura... Pode, no entanto, dizer-se, que era uma dor boa... a mesma que sentimos quando nos dão o empurrão que nos ajuda a fazer a espargata pela primeira vez... Nunca tínhamos sentido os tendões esticarem tanto, mas a verdade é que, sem sequer sabermos que era possível, ali os tínhamos, a deixarem para o trás o antigo máximo, que era já "o máximo"!
Ora, o miúdo nunca tinha pensado que os tendões do seu coração pudessem esticar tanto... De certeza que aquilo era "o amor", porque "a paixão" é só um alongamento fora da série, sem resultados a longo prazo na extensão dos músculos. Aquele era um bom sentimento estranho. Mas como sempre, nada dura para sempre.
Imagine-se agora, então, e esta história vai continuar a servir-se da metáfora realista do corpo humano, que os tendões são elásticos... Quanto mais esticamos um elástico, mais nos vai magoar a mão deixá-lo fugir, cortá-lo...
Os tendões do miúdo tinham aprendido a esticar tanto por amor que, por mistérios que só podem ser do amor, voltavam a esticar, de cada vez que ela os cortava com a frieza do seu olhar. Do seu coração chicoteado, voltavam a esticar, cada vez mais fracos, para serem novamente cortados.
Foi assim que o miúdo passou a alimentar-se de sofrimento, que é como quem diz "de amor". O que teria ela de especial para que o miúdo não conseguisse sobrepor-lhe a lembrança e a presença do estado do seu coração? Nas veias do miúdo correu sangue e depois lágrimas... Agora, são só a estrutura que limita o vazio que começa no buraco do seu coração.

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